Caro Borges. Fiquei tentada a lhe escrever esta réplica, porque também façoparte daqueles que iniciaram o que você chama de polêmica, com respeito à primeira parceria entre o Cerpro e o NCE, cujo fruto colhido é o Liane Tts.

Mas minha réplica se dará, no terreno o mais amistoso possível, isto porque tenho imenso respeito pelo Borges, poderia mesmo dizer, muita gratidão, porque foi pela via do Dosvox que iniciei minha vida informática, sendo hoje, uma daquelas usuárias não contabilizadas pelo Caec, que já migrou do programa materno para outros ledores de tela, satisfeita com o software livre NVDA, que me permite o título de uma das twitteiras mais mencionadas em minha cidade, quando faço uma campanha de ciberação, ou ainda, como uma usuária do facebook com mais de mil amigos em sua lista, sem falar da minha recente incursão no #moodle,onde ministro aulas à distância.
Esse meu pequeno currículo informático, permite-me pois, ao mesmo tempo em que não abro mão da amistosidade, tampouco abrir mão da franqueza, esta que sempre foi uma das minhas características, pois aqueles que já assistiram a alguma minha discussão, sabe que ela se planta no terreno das idéias, da defesa de interesses justos, nunca no terreno do insulto gratuito e grosseiro.
É assim que não faço nenhum reparo importante à primeira cparte da sua carta, aquela que narra a história do Cerpro, nos seus propósitos de qualificar o desempenho das pessoas cegas dentro da plataforma do Governo Eletronico. Entretanto não me furto a um alerta: Temos sido tentados a utilizarmo-nos das estatísticas brasileiras sobre cegos, sempre desatualizadas, sem qualquer sem-cerimonia, sem qualquer enxerto de realidade, isto porque falta pesquisa na área, que de fato apresentem indicadores fidedignos da nossa situação. Quantos somos? Quantos se integraram à informática? Quantos lêem Braille? Etc, etc. Precisamos ter mais cuidado na utilização desses dados, e está na hora de engrossarmos as fileiras daqueles que pedem uma pesquisa de longa duração, que nos apresente números fiéis sobre a nossa realidade coletiva. Quem sabe o Cerpro não poderia ser um dos nossos parceiros na área, já que tem tanto interesse em modificar nossa situação de cidadãos de segunda classe?
E chego ao segundo momento mais contundente da sua carta, aquele onde você afirma que o Liane Tts dá de dez a zero no (e-speak). “Fala sério!” diria a Angélica. O (e-speak) está se convertendo num sintetizador robusto, com suas diversasvariantes, para todos os gostos. Há as roufenhas, as metálicas, as fechadas, enfim, já são múltiplas as perspectivas, que se renovam a cada nova complilação, que acontece diariamente, duas vezes, duas atualizações no mesmo dia.
Por outro lado, quero louvar as iniciativas anunciadas na sua carta, como o desenvolvimento de jogos e outros, ressaltando entretanto que, o Cerpro poderia também engrossar nossa luta junto ao governo federal, para que consolide um programa de ajudas técnicas, de subsídio por exemplo para a compra de produtos cujas soluções de acessibilidade já foram implementadas. Louvo também o esforço da pesquisa acadêmica, mas, você sabe tanto como eu, a forma como se trata a pesquisa brasileira, a desvalorização que ela alcança, sobretudo em produtos voltados às minorias.
As Parlapatices da imprensa? Em parte concordo com você, por outro lado, entretanto, a imprensa somente fez coro com o Cerpro, que anunciou e divulgou amplamente uma teleconferência, para propagar a salvação da inclusão social dos cegos, demonstrando um sintetizador de voz que já habitava o quite dosvox, e, foi empacotado nos ledores de tela que são de fato os propulsores das nossas facilidades no ambiente informático, e, diga-se de passagem: nem o Orca, nem o NVDA precisam hoje do Liane. Provavelmente, talvez seja o Liane que precise mais desses leitores, para crescer, fortalecer-se, ampliar sua rede de actantes nessa infovia cibernética. É aqui que reside talvez nossa indignação, ou o que você chama de polêmica. O Liane seria proclamado e bem vindo, se não fossem atribuídas à ele, todas as premissas de salvação, que na verdade não são dessa síntese de voz.
É assim que dou segmento à minha réplica, na trilha da sua: O Orca, o NVDA, já têm suas boas, amplas “portas de saída”, suas sínteses de voz, que dão de dez a zero no Liane Tts, embora não creia que essa disputa deva ser a tônica desse diálogo.

As críticas não são somente do Rui Batista, tampouco podem ser classificadas como “purismoideológico”. As críticas são de uma coletividade cega que cresceu, ampliou suas perspectivas, aprendeu com o dosvox e respeitosamente buscou novos modos de ir e vir no ciberespaço.
As críticas são de um grande número de pessoas, fatigadas com o modo como a acessibilidade à informação e a comunicação tem sido tratada em nosso país, com projetos encenativos, com promessas de salvação, gestadas no rol de estatísticas falaciosas. As críticas são à louvação de produtos que não foram desejados pelas pessoas cegas, não nasceram dos nossos anseios, mas de uma pauta apressada em criar fatos noticiosos sobre uma acessibilidade que de fato, muitas vezes, nem na propaganda é comtemplada.
Com todo respeito Borges, todas as perguntas formuladas ao Cerpro ainda não contaram com qualquer resposta: Sei que não compete a você respondê-las. Mas, acredite, precisamos da sua energia, da sua inteligência, da sua tenacidade, do nosso lado, reconhecendo que projetos dessa natureza não se sustentam, e que os nossos reais problemas precisam ser atacados de frente, com diálogo, com participação democrática, sob pena de vivermos eternamente uma vida de militantes, a berrar, do outro lado do muro, enquanto que os gestores, os criadores, os governantes, nos acenam com suas pequenas fatias de coisas criadas para museu.

E aqui permita-me uma pequena confidência política: Nunca me senti tão autorizada a fazer essa crítica, porque apoiei o governo da presidenta Dilma e quero que ele também cresça nessa área da tecnologia assistiva, ouvindo seus usuários, sondando suas demandas, trabalhando números fiéis, porque quanto mais se manipulam números, à revelia da realidade, mais esses números servem aos propósitos da propaganda e da falácia.
Finalmente, como possam pensar alguns, faço a ressalva de que a nossa briga não coloca o Dosvox na arena, este que é, reconhecidamente, um grande sistema operacional que, como qualquer sistema informático, tem seus limites e suas vantagens. Nossa briga é contra projetos que só têm por finalidade, adiar a nossa tão reivindicada acessibilidade à informação e à comunicação.
Joana Belarmino é jornalista, mestra em Ciências Sociais, Doutora em Comunicação e /Semiótica, professora titular do curso de Comunicação e Turismo da Universidade Federal da Paraíba.

Escrito por Joana Belarmino

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